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quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Mensagem aos ausentes - Formatura



Semana passada aconteceram todas as cerimônias relacionadas à minha formatura, incluindo  colação e o baile.

Na colação, eu fiquei encarregada de escrever um discurso para os ausentes e lê-lo. Espero que gostem e que talvez os inspirem a escrever o discurso de vocês.

"Certo dia, eu estava deitada na cama com a cabeça debruçada sobre os meus braços cruzados. À medida que os segundos passavam, era possível escutar o tic-tac que fazia o relógio que estava no meu pulso. Eu escutava o barulho do tempo passando. Levantei a cabeça e vi minha avó dormindo, mas já em seus últimos dias, e pensei: “quantos tic-tacs mais minha vó ainda terá?” Essa pergunta me levou a vários outros pensamentos, e me fez chegar à lição número 1 aprendida com a perda de um ente querido: mais importante que a quantidade de tic-tacs que lhe são presenteados é o que você faz com esses tic-tacs, o que você faz com cada segundo, o que você faz com o seu valioso tempo. 

A lição número 2 veio alguns dias depois: “diga que ame e demonstre esse amor sempre que possível”. Infelizmente a gente não sabe quando é o último dia, o último olhar, o último beijo, a última visita, o último almoço juntos, o último carinho nos cabelos, a última vez em que uma mão vai tocar a outra, o último conselho, a última oportunidade de elogiar, a última oportunidade de dizer “eu te amo”, o último ‘até logo’, o último ‘nos vemos amanhã’, o último tic e o último tac do relógio.

Eu perdi duas avós durante o tempo em que estive na faculdade. Perdi a minha avó materna primeiro, e 7 meses depois a paterna. O sentimento de “nunca mais vou ver essa pessoa” é inigualável, e eu acho que nem deveria existir. É como se no momento alguém estivesse arrancando um pedaço meu, como se eu nunca mais fosse me sentir completa de novo. Lembro que quando eu passei por isso eu perguntava a todas as pessoas que já haviam passado por algo parecido “essa dor passa?”, e a resposta era sempre a mesma “ela nunca passa, mas ameniza. Vai se tornar uma cicatriz e aos poucos vai se transformando só em saudade”. 

E assim eu fui começando a aprender a terceira lição: não gosto muito da palavra ausente para definir quem não está aqui fisicamente. A regra é que esse texto seja dirigido aos ausentes, mas eu prefiro dirigi-lo aos que estão longe. Tenho um irmão que hoje vive na Alemanha, ele também não está aqui hoje fisicamente, e obviamente se estivesse mais perto ele estaria agora sentado em alguma dessas cadeiras. Desse modo, tenho duas avós que também estariam aqui hoje, sentadas em alguma dessas cadeiras, mas elas foram viajar, e por isso não estão aqui. Ausência não se encaixa aqui, já que eles estão comigo de alguma maneira. Lembro que uma das minhas avós um dia me disse: “No dia da sua formatura eu vou estar lá”, e eu tenho certeza que ela está aqui, assim como esteve em todos os outros momentos. Infelizmente a vida não é infinita, mas eu aprendi que o amor consegue ser. E é esse amor infinito que não me deixa distanciar das pessoas que eu não consigo mais enxergar no plano material, só no espiritual, afinal elas existem do lado de dentro.

Parafraseando Clarice Lispector, eu poderia resumir esse discurso em uma única frase: “Há momentos na vida que sentimos tanto a falta de alguém que o que mais queremos é tirar essa pessoa de nossos sonhos e abraçá-la.”

Vai chegar o dia que Deus vai chamar todo mundo, desde que nascemos aprendemos que essa é a única certeza da vida. E é tão engraçado, a única certeza da vida ser o momento que ninguém gostaria de viver, a gente vive tentando afastar o único momento certo de acontecer. A gente vive indo em médicos, nos privando de algumas boas coisas para assegurar que fizemos tudo para esse momento estar bem longe. O que me faz relembrar a lição número 1 aprendida e citada no início do texto: aproveite cada tic-tac do seu relógio. No fim das contas o importante vai ser o quão bem vivida sua vida foi.

Minhas avós foram viajar e deixaram muitas saudades. Saudades da presença física, do carinho e dos momentos memoráveis que vivemos. Mas agora, estão juntas com Deus, cuidando de quem ficou aqui, acompanhando cada passo, cada vitória, cada conquista.

Não vou finalizar em primeira pessoa, porque estou aqui representando um grupo. Então, nesse momento tão especial de nossas vidas, gostaríamos de dedicar essa vitória a todos aqueles que estão ausentes fisicamente, mas eternamente presentes em nossos corações."

Beijo, beijo,

Nicole Werneck

Instagram: @nicolewerneckf
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4 comentários:

  1. Tô passeando pelos seus textos. Só tenho uma coisa a dizer: Por favor, não pare de escrever.
    Meus parabéns. Abraço.

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    1. Oi Sarah! Que bom que você gostou dos textos. Continua acompanhando aqui. Vai vir muita coisa boa!! Beijinho!

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    2. seu texto é muito lindo,eu perdi meu irmão durante a faculdade, gostaria de fazer uma homenagem a ele na minha colação que está se aproximando, posso usar algumas idéias do seu texto? Foi difícil pra vc falar em público deste assunto?

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    3. Olá! Nossa, que ruim. Meus sentimentos. Então, eu achei que seria mais difícil falar sobre isso durante a colação, mas não sei de onde veio a força e eu consegui falar sem chorar (mas o auditório todo chorou). Pode usar sim, só se tiver que colocar os créditos vc coloca. Mas pode usar tranquilamente

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