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quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Será que a gente escolhe mesmo a família em que vai nascer?



Como meu blog não tem nada de cronológico, vou contar uma história que aconteceu na Copa, mas que não tem nada a ver com futebol. 
Era a última sexta-feira do Mundial. Eu estava no Outback no shopping de Botafogo, no Rio de Janeiro com uma prima. Esperamos cerca de 3 horas para poder entrar no restaurante, já que lá dentro os gringos povoavam as mesas e pareciam não querer liberar nem um espaço para as 33 reservas que ainda tinham na nossa frente. Só pra constar: esse tempo vale para comer as coisas deliciosas do cardápio de lá.
Depois de todo esse tempo, sentamos na mesa e começamos a falar de como a vida era engraçada, estranha e surpreendente. Atualmente eu moro em Juiz de Fora (Minas Gerais), e tive um recesso na faculdade durante a Copa do Mundo, não tivemos aula durante aquele mês. Os meus planos então eram de passar todo o mês da Copa na casa da minha família que mora no Rio. Mas como o mundo dá voltas, a doença da minha avó se agravou e ela acabou falecendo nesse intervalo de Copa-Rio. Decidi então ficar com a minha mãe na cidade de Três Rios, era o nosso luto. O que eu mais queria naquele momento era fugir de toda aquele confusão de Copa do Mundo, queria ficar trancada em casa o dia inteiro. Eu queria a minha vó de volta. Ficamos um tempo em Três Rios e depois subimos pro Rio de novo. 
O fato é que naquela sexta, sentadas no Outback, eu e minha prima falávamos sobre a nossa saudosíssima avó e em como ela era intensa. Em como ela brigava e nos amava, e expunha as emoções dela. Lembro que quando eu e meu irmão éramos crianças, ela ficava no nosso pé: "Vai estudar; Nicole"; "Vai arrumar seu quarto"; "Não tá mais na hora de brincar"; "Nicole, ajuda a moça que tá trabalhando na sua casa, você tem que aprender a fazer alguma coisa, você tem que aprender a arrumar casa, a cozinhar". Quando eu era criança eu achava isso chato, depois que fui ficando mais velha, percebi que tudo isso era por proteção, eu realmente tinha que aprender a fazer alguma coisa. 
Um dia, quando eu era adolescente, estava em uma festinha na casa de uma amiga. A mãe dela, que era espírita, se aproximou e nos disse que antes de nascermos, a gente escolhe a família que a gente quer fazer parte. Lembro que todas nós rimos e falamos:"Ah tia, fala sério, se eu pudesse escolher teria escolhido ser filha da Xuxa po. Rica e famosa. Eu nem ia precisar estudar." 
Até hoje eu não sei bem em que acredito que acontece com a gente depois da morte, ou antes da vida, ou se isso é a mesma coisa. Eu sei que acredito em Deus, mas no que vai acontecer depois daqui não sei, espero que seja uma coisa muito boa.
No último mês de vida da minha avó, ela só conseguia ficar deitada. Mas não a deixamos sozinha em nenhum momento. Certa vez, sentei na cadeira que ficava do lado da cama dela. Peguei naquela mão que já estava tão fininha e disse: "Vó, se eu pudesse, escolheria ter passado por tudo o que nós passamos outra vez, ou outras vezes, ou quantas mais vezes pudessem existir. Eu teria escolhido sempre você para ser minha vó. Obrigada por tudo." E aí lembrei daquele dia da festinha na casa da minha amiga: "A gente escolhe a família que vai nascer."
Depois que ela foi para o CTI, em uma visita, eu peguei de novo na mão dela e pensei:"Como nossas mãos são diferentes. Sua mão está tão fina agora. Não era assim quando eu era criança, ela era mais firme. A sua nunca mais vai ficar igual a minha, ou voltar a ser o que era, mas a minha provavelmente vai ficar igual a sua um dia.".
Ela já nem conseguia mais respirar direito. Eu sentia que ela estava morrendo na minha frente. Eu tinha que segurar o choro, e só conseguia abraçar e dizer:"Te amo. Obrigada por tudo".
Eu sempre voltava pra casa mais convicta ainda de que a mãe da minha amiga estava certa. A voz dela se repetia na minha cabeça. A gente escolhe a família em que vai nascer. Talvez isso seja mesmo verdade. Eu por exemplo, nem precisaria entrar em outra fila pra escolher a família em que eu queria nascer. Dona Tilza, a nossa história é de outras vidas, outras épocas, de outras escolhas e das mesmas escolhas. Obrigada por tudo.

Nicole Werneck.

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