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domingo, 17 de agosto de 2014

Como é morar com uma família de muçulmanos na Capadócia



Estudei com um turco em Portugal. Um não, vários. Certo dia comentei com eles que eu tinha muita vontade de conhecer a Capadócia. Um deles disse: "Eu sou da Capadócia. Você pode morar com a minha família quando acabarem as aulas, se você quiser". Três meses depois eu estava lá. E além de estar na Turquia, estávamos também na época do Ramadan.

Ramadan é o nono mês do calendário lunar islâmico (isso significa que a época do Ramadan varia de ano para ano) e é um dos cinco pilares do Islam (Shahada-profissão de fé, Salah-cinco orações diárias, Sakat-caridades, Ramadan-jejum e Hajj-peregrinação a Meca). Durante esse mês, os muçulmanos jejuam do nascer ao pôr-do-sol, nem água eles tomam.

Estávamos eu e uma amiga na casa desse nosso amigo. Lembro que antes de chegarmos à casa dele, nós estávamos com muita vergonha, porque não sabíamos como deveríamos nos vestir e ficávamos pensando sobre tipos de atitudes que deveriam ser proibidas ali.

As coisas na Turquia normalmente atrasam muito, e com o ônibus que nos levaria à Capadócia não foi diferente. Chegamos na cidade de Avanos com duas horas de atraso e estávamos sem ter como nos comunicar com nosso amigo. Todos os outros passageiros tinham descido nas cidadezinhas antes de Avanos, porque são mais turísticas. Só ficou eu e Vik no ônibus, conversando com o ajudante do motorista por meio de mímicas(ele não falava inglês).

Chegando na rodoviária, nosso amigo já não estava mais lá nos esperando, já tinham avisado a ele que o ônibus atrasaria. Bom, Avanos não tem uma rodoviária propriamente dita.É uma paragem de ônibus com uma casinha que vende as passagens. Entramos na casinha, tentamos começar uma conversa em inglês, mas como já falei em posts anteriores, na Turquia as pessoas não falam muito  inglês. Eles não nos entendiam, não tínhamos o endereço do nosso amigo, só tínhamos o número do telefone dele. Apontamos para o telefone e eles entenderam que queríamos usá-lo. Permitiram que usássemos. Os turcos são muito legais, eles gostam de ajudar.

Cinco minutos depois, nosso amigo chega lá. Uma coisa que eu tenho que falar é sobre a hospitalidade turca. Eles sabem receber muito bem pessoas em suas casas. Quando chegamos na casa dele estávamos com muita vergonha dos seus pais. A família dele é muçulmana, uma cultura totalmente diferente da nossa. E não é uma coisa muito comum um jovem muçulmano receber e hospedar duas meninas(uma brasileira e outra grega) em sua casa. Não sabíamos muito bem como nos portar. Isso tudo foi quebrado quando colocamos os pés na casa dele. Literalmente os pés, antes de entrar em alguma casa na Turquia, você deve tirar os sapatos para não levar poeira para dentro da casa.

Ao entrar, balbuciamos um cumprimento em turco que tínhamos acabado de aprender, e eles se esforçavam ao máximo para falar alguma coisa em inglês. Mas naquele momento o que nos cativou e nos mostrou que a enorme diferença cultural não seria problema para nos darmos bem foi o enorme sorriso com que ele nos receberam. A gente sempre sabe quando o sorriso é sincero e de boas-vindas. Eles não falavam inglês, mas se esforçavam em nos entender e em se fazer entender. Apesar de estarem no Ramadan, fomos recebidos com uma grande mesa de café-da-manhã. Só nós comemos, eles tinham que fazer jejum. Nos dias que se seguiram eu e Vik quebrávamos o jejum só mesmo no café-da-manhã. Nós sempre acordávamos com aquela mesa maravilhosa nos dando bom dia. Em contrapartida, para respeitar que estávamos em uma casa muçulmana naquela época tão importante, fazíamos o jejum do café-da-manhã até o jantar. E eles não viam problema nenhum nisso. Eles respeitavam a nossa cultura e nós a deles.

A casa tinha dois quartos. Um do Huseyin(nosso amigo) e de sua irmã e outro dos pais dele. A irmã do Huseyin já não morava naquela casa porque havia se casado. Aliás, a mãe do Huseyin nos mostrou o álbum de casamento da filha com MUITO orgulho, dava pra ver nos olhos dela. Casamento é MUITO importante na Turquia, principalmente para as mulheres.

Se algum dia o Huseyin vier me visitar no Brasil, é minha obrigação recebê-lo MUITO bem. Nós sempre nos oferecíamos para ajudar com alguma coisa na casa, e eles não deixavam, a mãe dele sempre colocava nossa roupa pra lavar(que vergonha...rs). O pai dele sempre pagava as coisas quando íamos visitar algum lugar ou comer fora, o que depois imploramos para não acontecer mais, sempre dávamos um jeito de pagar escondido antes dele.

Família também é uma coisa muito importante e levada a sério na Turquia. Todos os dias do Ramadan, depois do pôr-do-sol jantávamos com toda a família reunida. Tios, primos, vó, netos, todos. Eu que gosto de casa cheia e família grande adorei isso. TODOS da família dele nos tratavam muito bem. Eles queriam conhecer o novo. Huseyin disse que nós fomos as primeiras estrangeiras que se hospedaram na casa de alguém da família.

Depois de jantar, sentávamos nos tapetes e almofadas e conversávamos. Huseyin traduzindo tudo para gente. Ah...dento de casa as mulheres não usam véu, só quando vão para rua. Elas também não se importavam que nós não usávamos. Na Capadócia o clima é muito árido, o verão é verãozão mesmo. Estava muito quente na época em que estivemos lá. Mas por respeito estávamos sempre vestindo calça e camisas sem decote. Até que um dia ele perguntou o porquê de não usarmos short ali, já que no verão de Portugal sempre estávamos vestindo short. Falamos que era porque não estávamos mais em Portugal, que agora era outra cultura e não sabíamos se seríamos bem aceitas usando short. Ele disse que não teria problema nenhum nisso, pedimos para ele perguntar a sua mãe, e ela disse que claro que não via problemas naquilo.

Lógico que existem famílias que são extremamente rígidas e que não aceitariam muito da cultura do ocidente em suas casas. A minha experiência na casa do Huseyin e de sua família foi super positiva. Adorei e voltaria!!

                                     
Café-da-manhã

 Fazendo pote com o tio do Huseyin

Fazendo pote com o tio do Huseyin

My Turkish friend

Temos muitas outras fotos com a família dele, mas como são dentro de casa e as mulheres estão sem véu, preferi não colocar aqui.

Nicole Werneck.

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