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terça-feira, 17 de junho de 2014

Mensagem de um neto a sua avó



"Como pode um peixe vivo viver fora da água fria? Como poderei viver, como poderei viver, sem a tua, sem a tua, sem a tua companhia?"
Foi cantando essa música, que as pessoas que se encontravam na capela mortuária se despediram da minha avó um pouco antes do caixão ser fechado.
Parece mórbido, e é. Principalmente quando isso se diz respeito a minha vozinha.
Minha avó sempre foi forte e lúcida e eu nunca a vi doente. Muito pelo contrário, ela que cuidava de mim quando eu estava mal. Certa vez eu adoeci e por ordens médicas, eu só podia levantar da cama para ir ao banheiro. Ela, com seus setenta e sete anos colocava uma cadeira do lado da minha cama e não saía de perto de mim. fazendo tudo o que eu queria. "Vó, estou com fome.", "Vó, me ajuda a levantar pra ir ao banheiro.", "Vó, conversa comigo."
Mas esse ano, ela começou a ter várias complicações. No início, começou a andar de muleta. Apesar de aquilo me doer o coração, pensei que era o ciclo da vida, o corpo vai deixando de funcionar, e na minha cabeça seria aos poucos, bem aos poucos. Nosso corpo é uma máquina, e as coisas vão dando defeito. Toda máquina tem seu prazo de validade, a gente tenta consertar aqui, reparar ali, mas chega uma hora que a máquina para mesmo de funcionar. Isso não soa humano, nem de se ouvir nem de se falar, mas infelizmente é assim que acontece.
Depois, ela começou a ficar tonta, sua vista escurecia às vezes. E tudo foi se transformando em uma bola de neve. Ela começou a ter dificuldade de respirar e foi perdendo o apetite gradualmente. Ela odiava médicos, e não admitia fazer exames. Provavelmente por medo de descobrir alguma coisa ruim. Cansamos de marcar consultas pra ela, mas quando ela chegava no médico falava que estava tudo bem, que já tinha melhorado. Até o dia que ela entendeu ou sentiu que seu corpo já não era mais o mesmo, e que não estava reagindo. Aceitou fazer os exames. Exames e exames depois, foi constatado: tumor maligno no útero. O que ela mais temia. 
Aí começou a correria, corremos contra o tempo e precisávamos que o corpo dela reagisse. Aqui, quero enaltecer minha mãe e minha prima Bruna, que largaram tudo para ficar por conta da minha avó 24 horas por dia. 
O médico precisava de mais exames para ver se havia tido a metástase, ele pediu uma tomografia e uma ressonância magnética. Com bastante dificuldade de respirar, ela precisou que a ambulância fosse buscá-la e só conseguiu sair de casa de cadeira de rodas. Fez a tomografia e mandaram ela se internar com urgência, pois estava com uma embolia pulmonar já grave. Ela nem conseguiu fazer a ressonância. Foi para o CTI, e acompanhávamos de perto e com MUITO amor todo o tratamento dela. A família estava girando em torno da nossa matriarca, que sempre abraçou todos com muito carinho e dedicação. O problema ficou maior: deveríamos tratar primeiro a embolia para depois tratar o tumor. Todos esses problemas que minha avó havia apresentando eram consequências do tumor. Essa doença é terrível, quando começa a dar sinais é porque já está em estágio avançado. Lutamos, lutamos, lutamos. Não a deixamos nenhum minuto sozinha, fizemos tudo o que deveria ser feito. O quadro dela ficou estável, e os médicos disseram que dariam alta para ela ir para o quarto. No dia que minha mãe foi assinar os papéis autorizando isso, o médico que estava de plantão conversou com ela e disse que não poderia tirá-la do CTI aquele dia porque a pressão da minha avó foi a 6 por 2, e que eles preferiam regularizar isso. A noite voltamos ao CTI para mais uma visita, e veio a notícia. Minha avó não resistiu.
Pra mim é estranho ouvir isso, que minha avó não resistiu. Logo ela, que sempre resistia a tudo. Logo ela, que era o porto seguro de todos, da família, dos vizinhos, dos amigos. Eu achava lindo chegar na casa da minha avó e sempre estar cheia de gente, de amigos, de vizinhos. Eu achava lindo o quão ativa ela era. Eu achava lindo como ela tinha força pra brigar e bater o pé pelo que ela queria.
Minha vó era daquele tipo que quando eu brigava feio com meu pai ou minha mãe, ela falava pra mim:"Pega suas coisas e vem morar comigo. Tem seu quarto aqui, tem comida, e tem amor." 
Minha vó era muito brigona, teimosa, viva. E talvez a lição mais importante que ela tenha deixado pra mim é para que eu brigue por quem eu amo. Porque agora, refletindo e lembrando os nossos muitos momentos, eu não lembro dela brigando por ela, por alguma coisa que ela queria. Eu lembro dela brigando porque fulano falou mal de alguma neta, porque ciclano teve uma atitude errada com quem ela gostava. Minha avó era amor.
Impossível não chorar pela pessoa que te ensinou a amarrar sapato, que te levava da aula de teatro a aula de ballet, que te esperava em casa cheia de bala e doce, que te chamava na rua no dia do pagamento dela pra te dar um dinheirinho, que escancarava as portas da sua casa para te receber, que escancarava os ouvidos para te escutar, que conversava sobre tudo com você, e que dava os melhores conselhos.
Quando eu recebi a notícia, eu senti um pedaço meu sendo arrancado. Mesmo sabendo que seria difícil ela resistir a tantos medicamentos e tratamentos, eu tinha esperança, todos nós queríamos lutar por ela. Eu me senti mais sozinha no mundo. Tudo o que acontecia na minha vida, as primeiras pessoas a saber eram minha mãe e minha avó. E perdendo a minha avó, é menos uma pessoa que eu posso contar pra tudo.
Sou feliz de ter curtido muito a minha avó, de ter ligado muitas vezes pra ela, de ter abraçado, beijado, falado que amo, ter mandado cartas, ter escutado, ter tido uma relação tão próxima com essa pessoa essencial.
Vó, vou sentir saudade dos seus telefonemas, de acordar no dia do meu aniversário e minha mãe já vim dizer : " Sua avó já ligou, mas você estava dormindo. Ela disse que liga mais tarde". Vou sentir saudade da sua comida, de segurar na sua mão enquanto víamos televisão, de chorar por tudo junto com você(já que nós somos as pessoas mais manteigas da família), de te mostrar fotos de viagens, de rir do seu jeito de falar, de me admirar com seus conselhos de moda e de sentir seu cheirinho. 
E no dia da nossa despedida, você vó, continuou me ensinando coisas. Olhando pra você ali deitada, eu tive ainda mais certeza de uma coisa que eu constatei no meu intercâmbio e que eu já até escrevi sobre. Eternidade. Desde criança, o mundo me diz que nada é eterno. Bom, se nada é eterno, nós somos exceção. Porque o nosso amor é eterno. Vou me lembrar de você e te amar até o final dos meus dias. Te amo por nossos futuros encontros e pelos passados. Tem amor aqui guardado para uma vida que espero que tenhamos juntas de novo, em algum lugar, em algum plano. Mesmo não estando fisicamente presente, você está no coração e isso é o que importa. Nosso laço é muito forte e nosso amor para sempre.
Em um discurso final, meu tio pediu para que todos ali presentes aplaudissem minha avó e com palavras muito bonitas, fez todos se emocionarem. Ele disse uma coisa que eu realmente nunca tinha parado para pensar. Por trás de todo grande homem, existe uma grande mulher, e todas as pessoas logo relacionam essa grande mulher à esposa. Mas ele queria relacionar a grande mulher a minha avó, sua mãe.  
Por trás de todo grande homem existe uma grande mulher. E essa mulher, antes de ser a esposa, é a mãe.
E nós só somos separados de nossas mães, porque o médico corta o cordão umbilical. Antes disso, nós somos um. Eu já fui parte física da minha mãe, e ela já foi parte física minha. Nós éramos um só. E acredito que até hoje, nós sejamos um.
Não sei se algum dia eu vou voltar a me sentir completa e se vou me sentir menos sozinha. A dor hoje é gigante e machuca muito. Arrancaram uma parte de mim. E é estranho tentar explicar, porque ela não se foi por completo. O corpo dela se foi, mas acho que a alma ainda habita um pouco em todos nós.
Existem coisas que são eternas, e o nosso amor vó, é mais que eterno, vai além de vidas, além de planos, além daquele respiro que você não conseguiu dar pra viver.
Obrigada por tudo! Eu te amo muito!

Nicole Werneck
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6 comentários:

  1. Meus sentimentos. Que Deus possa confortar você nesse momento tão doloroso. Com certeza vc trouxe mais uma alegria pra sua avó, com esse texto, lindo mais triste. Linda a história de vcs ! Fique bem.

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    1. Ei Raquel. Muito obrigada! Só o tempo pode transformar a dor em saudade mesmo!

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  2. Avó...palavra doce!Amanhã faz um mês que minha vovó me deixou.E foi assim sem nem me dizer adeus! Até hoje espero uma despedida!Eu sabia que ela ía partir,mas não sabia que ía me deixar.Parecia eterna,mas não era...E eis me aqui com o profundo vazio que eu não sei como lidar. Me apego a Deus pra tentar amenizar a dor da sua falta.Mas quando olho pra minha mãe e vejo em seu olhar um silêncio profundo me vem toda a dor novamente.A sua gargalhada não ouvirei mais e nem o seu cheiro e nem o seu carinho!Não posso acreditar que tudo acabou!Agora só me restaram fotos,roupas e um sentimento de que podia ter feito mais...mas não deu!Como a morte pra mim é um mistério,espero apenas que minha vovó esteja em algo melhor do que tudo isso aqui e olhando pra mim!

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