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terça-feira, 29 de abril de 2014

Por que viajar sozinho



Peguei minhas malas e entrei no ônibus. Bom, aquilo nem mala decente era. Eu estava com uma mochila, não era mochilão, era uma mochila de escola mesmo e uma bolsa. Deixando Thessaloniki, que é a segunda maior cidade da Grécia, e indo em direção a Sofia, capital da Bulgária. Dessa vez minha fiel amiga de viagens, Vik, não iria comigo. Dessa vez ela não poderia me acompanhar porque tinha que resolver a papelada para fazer intercâmbio no Brasil (ela já até está em território brasileiro). 
Como qualquer pessoa que fosse viajar sozinha pela primeira vez, eu fiquei com medo, muito medo. Eu não sabia o que ia encontrar, o búlgaro é totalmente diferente das línguas que eu dominava. Me decepcionei imensamente quando vi que o alfabeto grego que tinha aprendido com muito custo era bem diferente do búlgaro. 
O fato é, peguei o ônibus de meia-noite, me despedi da Vik, chegaria às seis da manhã na Bulgária. O motorista fechou a porta do ônibus atrás de mim. 
Mandei um todo simpático: 
- Tê kânis? (que significa "como vai" em grego)
Ele respondeu alguma coisa que eu não tinha entendido. Droga, deveria ser alguma lição que eu faltei no curso. 
Desisti, e comecei a falar em inglês. Ele me falou mais alguma coisa que eu não entendia. O ônibus todo falava coisas que eu não entendia. Aí percebi, eles não falavam grego, nem inglês, nem espanhol, nem italiano, nem português, línguas que eu entenderia, eles falavam búlgaro.
O motorista não tinha muita paciência. Eu já sabia que a passagem era algo em torno de de 20 euros. Dei 50 euros para o motorista, ele fez sinal de depois. Entendi que depois ele me daria o troco. O ajudante do motorista me levou até o meu banco e disse passport. Mostrei o passaporte, ele pegou e levou para o motorista. Já tinha visto aquele filme, aquilo já tinha acontecido na Turquia comigo. Comecei a chorar, tudo estava escuro, o ônibus já tinha partido, eu não entendia o que as pessoas falavam, elas não me entendiam, e eu estava sozinha. Como eu queria a minha mãe comigo naquele momento. Não dava mais para voltar pra trás. Comecei a questionar o porque eu fazia aquelas coisas, eu poderia muito bem ter ficado na Grécia, tudo estava bom ali. Pra que eu tinha que inventar de ir sozinha para um país desconhecido, que as pessoas falavam que era perigoso e nem é tão turístico. Fiquei me culpando e me perguntando o porquê de eu ser daquele jeito.
Normalmente quando se viaja de ônibus de um país para outro na Europa, eles pegam o passaporte ou identificação de todos para passar na barreira, isso já tinha acontecido na Turquia. Mas na época eu não sabia que isso era procedimento comum. Já tinha feito meu plano, passando na barreira, se ele não me devolvesse o passaporte eu ia lá buscar, gritar, fazer um escândalo até ele me devolver, e descer na barreira...haha. Ali seria mais seguro descer, já que tinham policiais, e eles teriam dar um jeito de me levar de volta para o meu lugar de origem. Isso era o que eu pensava. 
Paramos na barreira, o ajudante do motorista desceu com os passaportes, eu fiquei ali do lado de fora do ônibus olhando todos os movimentos dele. Hora de subir de volta, e...entrega dos passaportes!! 
Só tinha vindo o passaporte, não o dinheiro. Fiz sinal de dinheiro com a mão, e ele voltou e pegou o dinheiro. Ele me entregou e abriu um sorrisão. Aí eu não aguentei, pronto, tudo estava bem de novo, e eu era a pessoa mais feliz do mundo. É que eu não resisto quando alguém sorri pra mim. Sorriu pra mim, pronto, já viramos amigos.
Aí minha preocupação passou a ser outra, eu ainda não tinha perdido o costume de viajar sem saber onde iria ficar, onde iria dormir. Até hoje, e acho isso ótimo. Preocupação para o outro dia, porque eu estava muito cansada. Fui dormir. 
Acordei na rodoviária de Sofia, mais tranquila e com todas as minhas coisas, fui fazer o que eu mais gosto de fazer: conhecer gente. Aí eu já comecei a estar no meio de gente que falava inglês e que eu poderia ter uma comunicação verbal. Descobri o que eu não podia deixar de fazer e conhecer em Sofia, descobri a loja de doces mais baratas de Sofia, descobri o nome da rua de um hostel que falaram que era bom. Levei um tombo na cotação da leva, moeda do país. Primeiro país que eu não encontrei NENHUM brasileiro.
Fui atrás da rua do hostel. Era em uma das principais ruas da cidade. Me conectei a wifi. Um monte de mensagens de pessoas do couchsurfing marcando de encontrar. Chegaram duas inglesas no hostel. Conversa vai, conversa vem, fomos visitar a cidade juntas. No meio da tarde, fui para o hostel antes delas porque eu estava muito cansada. Um tempo depois, chegou um mexicano no meu quarto, eu e ele tínhamos fome. Descemos para comer algo. Aí uma pessoa do couchsurfing me mandou mensagem dizendo que estava chegando na cidade e que também não tinha onde ficar, indiquei o hostel pra ele. Teria um encontro do Couchsurfing, um cara do CS me mandou mensagem e disse que estava perto do hostel que eu estava. Disse para irmos juntos, que passaria no hostel e que estava com mais duas pessoas que conheceu no hostel dele. Por que não irmos todos juntos? No fim, fomos eu, o austríaco, arrastamos o mexicano, e os 3 do outo hostel, um holandês, um dinamarquês e uma alemã. Voltando para o hostel, fui conectar a wifi de novo. Tinha uma russa na sala de convivência que não conseguia conectar no facebook pelo computador do hostel. Ofereci meu celular, viramos amigas. Conversamos por 3 horas, ganhei um convite para ir conhecer a Rússia e eu também ofereci minha casa pra quando ela viesse ao Brasil. 
Nesse momento, no final da noite, quando eu deitei e não conseguia dormir pensando em tudo o que tinha acontecido naquele dia, todas as respostas às perguntas feitas a mim mesma no ônibus foram sanadas.
Por que eu fazia aquilo? Ficar na Grécia não era suficiente? Por que viajar sozinha? 
A resposta era o que eu estava sentindo naquele momento, não conseguindo controlar meu coração que parecia que ia pular pela boca. Eu procurava aquele tipo de emoção. Eu tinha que me perder pelo mundo. Eu tinha que ter ligação e ao mesmo tempo não ter ligação nenhuma com aquelas pessoas que eu conhecia a cada minuto. Eu tinha que ser dona de mim e poder escolher o que iria fazer, onde ia comer e o que visitar, sem ter que perguntar para outra pessoa se ela concordaria. Eu tinha que andar pelas ruas de um país totalmente desconhecido com pessoas totalmente desconhecidas, mas que buscavam as mesmas emoções e sensações que eu. Eu tinha que ir pra festa com gente diferente para conhecer gente nova. Eu tinha que descobrir quem eu era e o que eu queria. Eu tinha que aprender a me virar sozinha. E eu tinha que andar sozinha pelas ruas de um país sem entender o que estava escrito nas placas e sem entender nenhuma palavra do que as pessoas falavam. 
Na Búlgaria, eu me encontrei, e não parei de viajar sozinha. O destino traz naturalmente as pessoas e as coisas que você busca, mas você tem que permitir. Eu conheci um país fantástico, eu conheci pessoas fantásticas que eu mantenho contato até hoje e eu me encontrei comigo mesma e com os meus desejos naquele lugar. E talvez tenha sido a primeira manhã que eu me olhei no espelho e reconheci quem realmente eu era.

Nicole Werneck.

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2 comentários:

  1. Olá Nicole! Encontrei seu blog hoje e queria dizer que gostei muito de tudo, mas achei que esse texto ficou emocionante e lindo. Parabéns pela coragem e que venham muitas outras experiências boas na sua vida!

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    1. Olá!! Muito obrigada pelas palavras. Que você tenha muitas coisas boas na sua vida também!!!

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