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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Quanto vale um negro?



Cruzando o Arco do Triunfo em Paris, indo em direção ao Louvre, fui abordada por um cara que vendia miniaturas da Torre Eiffel e chaveiros com pingente de pontos turísticos da cidade. Eu disse que não queria, ele insistiu, eu disse que não novamente, e ele foi abordar outro turista. Dois passos adiante, veio outro, muito parecido com o primeiro, eu disse que não de novo. Mais alguns passos e vieram outros e outros e outros. Todos eles eram negros, altos, magros, o perfil era mais ou menos o mesmo. Imigrantes de um país da África que foi colonizado pela França no passado. Todos fugindo da fome e da miséria de sua nação de origem para tentar uma vida mais digna e humana no continente europeu.
Seus produtos eram vendidos "a preço de banana". Fiquei ali pensando qual seria o lucro deles. Alguns cêntimos em uma venda pequena, alguns poucos euros em uma maior. E a concorrência ali é grande, porque são dezenas deles disputando o mesmo ponto, vendendo os mesmos produtos. Se negociar, ainda consegue um desconto. É fácil achá-los nos outros inúmeros pontos turísticos da cidade.
O amigo brasileiro que estava me acompanhando, e que mora em Paris, disse que um dia estava esperando uma pessoa em frente ao museu a que eu me dirigia naquele momento, e que um destes vendedores se aproximou para oferecer seus produtos. Ele disse que não queria, mas começaram a conversar. Questionado sobre sua nacionalidade, meu amigo respondeu que era brasileiro, e o vendedor expressou sua enorme vontade de morar no Brasil e tentar uma vida melhor, já que ouve tanto falar sobre a crescente economia verde e amarela.
Fiquei ali em frente ao Louvre refletindo sobre aquilo e imaginando qual seria o destino dele no Brasil.
Fiquei imaginando aqueles caras que estavam na minha frente vendendo souvenirs em um outro cenário, como a Praia de Copacabana ou o Corcovado por exemplo. Ou então, como ele não tem formação acadêmica (disse isso ao meu amigo) e não quisesse fazer a mesma coisa que faz na França, o que sobraria seria ser mão-de-obra para os serviços em que são exigidas força e resistência humana. Assim como muitos brasileiros que vão (ou iam) para Europa sem nenhuma formação acadêmica, e executam esse serviço.
Me perguntei então, sobre o valor, não monetário, mas o valor humano desses caras para o Brasil e para os brasileiros.
Quanto você acha que valeria para o Brasil um cara negro, imigrante, sem ensino superior, trabalhando em algum possível subemprego? Quanto você acha que valeria para o Brasil os moradores das zonas mais baratas, das favelas e guetos, e das comunidades mais pobres?
Quanto você acha que valeria para o governo se um cara desses fosse morto em alguma operação, sendo "confundido" com um criminoso? E qual seria o valor do corpo no IML(se chegasse ao IML) sendo procurado por ninguém? Quanto valeria esse corpo ser queimado e nunca mais ser visto? Quanto você acha que vale uma pessoa ser esculachada e humilhada por uma sociedade hipócrita, demagoga e injusta? Qual é o valor desse cara para os políticos brasileiros, estando no Brasil como estrangeiros e sem poder de voto(na verdade, quanto você acha que é o seu valor para os políticos?)? Quanto vale para você o vendedor de rua, negro e pobre (sem mesmo saber da onde ele vem)?
E quanto você acha que vale o corpo desse cara, vivo ou morto, para família dele, pra pessoa que o pariu, para os seus amigos? Vale muito.
Conversando com um amigo negro, brasileiro, ele disse o quanto de preconceito ele sofreu na infância e adolescência. E o quão ruim é entrar em uma loja bacana e ser questionado pela vendedora se ele vai mesmo ter dinheiro para levar a roupa de marca que ele quer. E o sentimento bom que é passar o cartão(no débito) e ver a cara da vendedora que duvidou de sua condição financeira antes. E também sobre a dúvida das pessoas ao ver um negro bem de vida. "As pessoas veem o negro e já acham que é pobre, não acreditam que ele pode ter grana. Diversas vezes atravessaram a rua porque acharam que eu, negão, tinha uma arma e que ia assaltá-las. ", disse ele.
Eu acho muito injusto como muitas vidas se acabam na terrível guerra que o nosso país vive. E no poder de nós, cidadãos brasileiros, dignos, honestos, corruptos e sempre querendo nos dar bem em cima de tudo, muitas vezes simplesmente não nos importarmos. Não dar nenhum valor humano para pessoas que muitas vezes estão tão próximas fisicamente e tão distantes socialmente de nós. E não me refiro só aos possíveis africanos imigrantes em nosso país, eles foram só a minha inspiração para esse texto, mas me refiro também a todos que sofrem porque nós teimamos em achar o "padrão europeu" loiro de olho azul o melhor, o mais bonito, o mais rico, a melhor raça.
Vamos deixar o slogan ser apenas uma estratégia barata de marketing e fazer do Brasil um país de todos, fazer a carne negra, parda, amarela e indígena ter tanto valor quanto a branca. Afinal de contas a carne, seja ela da cor que for, se não estiver debaixo da terra, ainda está viva e sofre com as suas, ainda que discretas, manifestações de preconceito.





Nicole Werneck
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4 comentários:

  1. Nossa Nicole, que texto bonito! É o segundo post que leio hoje que me proporcionou reflexões tão essenciais, obrigada!

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  2. Parabéns Nicole, seu texto é lindo mostra que vc tem muita sensibilidade, beijos

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  3. olha... muito bom seu texto... posso levar p uma roda de debate no meu curso?

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    1. Olá! Claro que pode! A intenção é justamente fazer as pessoas pensarem sobre o tema!

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